sábado, 13 de junho de 2015

A história de um simples gato

Era mais um sábado em que eu estava indo para o meu treino de kung-fu na Federal, a minha disposição naquele dia não estava das melhores, tinha passado por uma semana puxada na faculdade e isso sem falar que estava chovendo pra caramba, o que tirava ainda mais a minha vontade de sair de casa, ainda mais se tratando de um sábado, mas de uma forma ou de outra eu tinha que ir, era questão de compromisso.
Almocei na casa do meu pai naquele sábado, como já é de costume, fiquei um pouco por lá mesmo depois de ter comido e esperei dar a hora do treino. Estava chovendo bastante naquela tarde, meu pai até me questionava sobre se eu iria treinar mesmo com aquele tempo, mas isso não seria empecilho, não seria a primeira vez em que treinaria na chuva.
Quando deu a hora, troquei de roupa e peguei o ônibus para lá, a chuva felizmente estava mais fraca quando eu estava indo para a parada, apesar de ainda ter dado aquele chuvisco fino, mas nada que fosse fazer alguém perder a cabeça.
Foram 15 minutos para o ônibus chegar e mais ou menos o mesmo tempo para ele chegar no seu destino. Tempo o suficiente para a chuva parar de vez, pra minha sorte, já que eu não tinha um guarda-chuva comigo naquela hora, que era um grande erro meu, sei bem disso.
Chegando lá, mais uma vez fui recebido alegremente por Chola, que veio feliz correndo em minha direção, e eu, como sempre, retribui o carinho dela, ela estava um pouco molhada por causa da chuva, mas eu não me importei muito com isso, aliás, nunca me importava. Mais uma vez eu fui o primeiro a chegar no local, então enquanto isso eu fiquei brincando um pouco com Chola.
Mas de repente, eu reparei em um som estranho, era um miado vindo da rampa de entrada da caixa d'água (o espaço onde a gente treina), não que gatos não fosse uma coisa normal pela Federal, muito pelo contrário, você encontra bastantes por lá, tanto quanto cachorros, sendo que esse miado em específico era mais baixo, mais "indefeso", se é que vocês conseguem entender o que eu quero dizer com isso.
Quando eu olhei, eu vi aquele pequena criatura branca subindo a rampa, e quando eu falo "pequena" não é exagero, era um simples filhotinho de gato, na hora em que o avistei eu estava sentado em um banco com Chola fazendo um carinho nela, e nesse momento ela própria estava distraída, e assim eu esperava que continuasse, porque ela normalmente fica latindo que nem uma retardada pra qualquer outro animal que passa pelo local, e se tratando de um filhote de gato eu não esperaria uma reação diferente.
Levantei lentamente para não chamar a atenção de Chola e fui vagarosamente em direção do gato, ao mesmo tempo me perguntava o que aquela pobre criatura estava fazendo sozinho por ali, e olhando de longe o coitado ainda parecia está bastante magro, o que era mais preocupante ainda.
Quando eu me aproximei dele, Chola reparou na movimentação e foi ver o que estava acontecendo, e certamente viu o pobre gato, sendo que na cabeça dela, aquele pequeno filhote era um invasor no seu território, então ela começou a latir que nem uma retardada, pra variar.
E isso, certamente, assustou o pobre coitado, que correu para de baixo de um carro que estava ali próximo. Tive receio dela acabar realmente indo pra cima dele, mas eu conhecia aquela cachorra, vez ou outra era chata pra cacete, mas nunca fazia nada, como diz o ditado, cão que ladre não morde.
- CHOLA, PARA COM ISSO! - gritei
Mas não surtiu nenhum efeito (surpresa seria se surtisse, essa cachorra só me ouve quando quer), e o pobre do gatinho continuava embaixo do carro completamente assustado. Dada as circunstâncias, eu tive que utilizar um artifício cujo eu preferiria não usar, mas infelizmente era necessário, que era ameaçar Chola. Peguei um pedaço de madeira que estava no chão e ameacei de joga-lo nela caso ela não deixasse o gato em paz, o que deu certo, ela se assustou e se afastou.
Eu não fiquei nada feliz em ter feito isso, mas era a única maneira que tinha de fazer ela largar do pé do filhote, e deixando claro que mesmo que não funcionasse, eu nunca iria agredir Chola, eu prefiro me dar cinquenta chibatadas nas costas do que fazer isso.
Tendo Chola se afastado finalmente, eu me abaixei para observar o gatinho, mesmo com o "perigo" tendo sido afastado ele ainda estava muito assustado.
- Calma, está tudo bem, ninguém vai te machucar. - falei bem baixinho tentando acalma-lo, o que parecia não adiantar muito.
Eu queria tirá-lo dali e coloca-lo em um local "seguro", que no caso séria longe de Chola, e se eu tivesse sorte, com alguma coisa pra ele comer. Mas ele parecia não confiar em mim, ainda me olhava com desconfiança, sendo assim provavelmente teria que me arrastar para tirar ele dali, me sujaria um pouco, mas era por uma boa causa.
Felizmente ele não estava em um ponto do carro muito distante, então não precisei me arrastar tanto, o gato ainda parecia um pouco receoso, tentou se afastar de mim enquanto eu me aproximava, até que em um momento eu consegui pegá-lo.
Foi aí que eu pude perceber que realmente, o coitado estava muito magro, dava pra sentir um pouco de seus ossos. Chola apenas observava a cena de longe, eu conhecia bem aquela criatura, sabia que ela não iria largar do pé do gato tão fácil assim, tanto que quando eu tentei o levar pra distante dela, ela nos seguiu.
Por sorte eu achei um cantinho não muito longe dali que tinha um pouco de ração pra gato (há algumas pessoas no local que deixam ração para os animais do local), então o coloquei ali pra que ele comesse um pouco, e com uma certa dificuldade, ele o fez.
Estava claro que ele estava um pouco fraco, aliás, era apenas um filhotinho, com aquela idade era pra ele estar com a mãe e seus irmãozinhos ainda, a partir daí que comecei a me perguntar se o pobrezinho tinha se perdido da sua família ou se algum desalmado tinha o abandonado por lá.
E como eu disse anteriormente, Chola nos seguiu até ali, e mais uma vez ela ficou encarando o pequeno gatinho, e nem precisou eu falar nada pra ela voltar a latir que nem uma retardada e o coitado voltar a ficar assustado, houve até um momento em que ela correu pra cima dele e ele saiu correndo em desespero.
E mais uma vez meus gritos pra que ela parasse não adiantaram de nada. Então o gatinho ficou se escondendo atrás da árvore, e Chola ainda ficou na espreita, mesmo sabendo que normalmente ela nunca faz nada, fiquei com medo de que dessa vez fosse diferente e a cachorra resolvesse atacar o pobre coitado.
Continuei gritando insistentemente pra que Chola o deixasse em paz, mas ela ainda não me escutava, continuava rosnando para o pobre do gatinho.
A salvação foi que nessa hora o meu mestre chegou, ele estava vindo de bicicleta para o local do treino e viu a cena, após encosta-la, veio na direção do local e chamou Chola, e dessa vez ela ouviu. Suponho que ela tenha ido em direção do mestre mais pra cumprimenta-lo do que pelo fato de que ele "mandou", Chola nunca foi muito de obedecer ordens, aliás, eu que o diga.
Depois de levar Chola para longe do local, o mestre veio me cumprimentar, eu tinha pego o gatinho novamente e o colocado de volta perto da ração, e depois que viu que estava tudo bem novamente ele voltou a comer.
Então aproveitei para perguntar ao mestre se ele como esse gato tinha ido parar ali.
- Provavelmente mais um caso de abandono, ele apareceu por aqui mais ou menos essa semana. - disse ele
Eu olhei pro gato mais uma vez, e falei:
- Mas só deixaram ele aqui? Ele não é de nenhuma ninhada?
- Provavelmente sim, mas ninguém viu nenhum outro que séria provavelmente algum irmão dele.
E cada vez mais crescia a dó que eu estava sentindo daquele gato, um filhote daquele tamanho não pode ficar sozinho dessa forma, ele fica bastante vulnerável.
- Não tem ninguém que possa leva-lo para casa? - perguntei
- Bom, se ele está ai até agora, provavelmente não... - falou meu mestre - eu até levaria, mas não tenho condições.
Se tinha uma coisa bastante perceptível no meu mestre era a afeição que ele tinha por gatos, só não tinha um realmente por causa da sua condição financeira.
Após isso, deixamos o gato ali comendo sozinho e fomos para a caixa d'água esperar dar a hora do treino, e naquele momento alguns pingos de chuva começaram a cair do céu.
Pouco tempo depois o pessoal começou a chegar e o treino começou de baixo de uma fina chuva, mas que não demorou muito para engrossar, porém, mesmo assim o treino continuou normalmente, e quando a mesma passou foi a gente que acabou "enxugando" um pouco o chão da caixa d'água.
Tudo ocorria dentro do normal, o treino estava de arrancar o nosso couro, e Chola, pra variar, vez ou outra entrava no meio atrapalhando um pouco a gente, mas quando não estava fazendo isso ou ficava deitada no banco ou ficava perambulando por ai.
Até que na primeira pausa do treino para tomar água, eu vi mais uma vez aquela pequena coisa branca e peluda subindo pela rampa da caixa d'água, e Chola nessa hora estava deitada por ali por perto, no mesmo instante ela se levantou e foi na direção dele já preparada para latir.
O gato que antes caminhava tranquilamente, passou a ficar preocupado quando Chola se aproximou, e o resultado não foi diferente, ela voltou a encher o saco dele, e o pobrezinho mais uma vez correu para de baixo do carro, não demorou muito para o mestre afasta-la dali.
Ele se abaixou, pegou o gatinho e o levou novamente para aquele mesmo local onde eu tinha o deixado, mas não demorou muito para o danado aparecer na rampa de novo, sendo que dessa vez demorou um pouco para Chola incomoda-lo de novo, mas quando ela subiu a rampa, vocês já podem imaginar o que aconteceu, como eu disse, Chola quando quer consegue ser chata pra cacete.
E meio que ficou nisso durante todo o treino, até chegar no ponto da gente não tentar mais afasta-la do gato (principalmente porque tinha horas que nem dava pra fazer isso, estávamos concentrados no exercício), por tanto, nosso critério era, a não ser que Chola realmente tentasse machucar o gato a gente não interveria mais.
Até que chegou uma hora que Chola resolveu se aquietar um pouco e deixar o pobre do gatinho em paz, talvez por cansaço, ou sei lá. Ela foi perambular um pouco por ai e o gato finalmente conseguiu um cantinho pra ficar quieto descansando um pouco, e daquele momento em diante eu já não conseguia mais me concentrar no treino, vez ou outra olhava pro gatinho preocupado com ele.
E mais uma vez veio a chuva (naquele dia ela ia e vinha constantemente), a gente mais uma vez teve que se molhar bastante e o gatinho, felizmente, estava em um cantinho abrigado, mas ele ainda assim aparentava estar assustado, provavelmente com medo de Chola aparecer novamente.
A chuva passou mais uma vez e o treino chegava no seu fim, quando o sol estava perto de adormecer por entre as nuvens, o mestre chamou todo para sentarem e falou algumas coisas importantes sobre a academia para a gente, mesmo momento em que Chola reapareceu e se juntou a nós, e o o pobre gatinho continuava ali naquele cantinho.
Quando o treino finalmente se deu por encerrado já eram umas seis e pouca da tarde, todos estávamos super cansados e querendo apenas chegar em casa e tomar um bom banho. Eu terminei minha água, cumprimentei o mestre, cumprimentei o pessoal, fiz um carinho em Chola (que na hora estava deitada aproveitando o quentinho de uma luz que tinha ali) e segui meu caminho até a parada de ônibus.
Mas nesse caminho, mais uma vez eu avistei o pobre gato, dessa vez apenas perambulava por ai procurando não sei o que, provavelmente só explorando a área, e a pena que eu sentia dele aumentava cada vez mais. E claro, fiquei cada vez mais tentado a levar ele pra casa, mas o problema disso era que minha mãe nunca me deixou ter um cachorro por uma razão, e isso certamente também valia para gato.
Certamente ela não iria gostar de ver que eu tinha levado um gato que estava na rua para casa, bem capaz de colocar eu e ele para fora, mas mesmo com isso tudo, não tinha coragem de deixar o pobrezinho ali sozinho, estava completamente vulnerável. E assim eu comecei a bolar alguns "planos" para que eu conseguisse levá-lo la para casa, alguns eram bem doidos, até, mas o fato é que eu não resisti, peguei ele e o levei comigo. Armei bem minha mochila para que ele pudesse ficar confortável nela, aliás, não dava pra ficar o levando no braço até em casa.
Foi no caminho até em casa que consegui analisa-lo melhor, ele estava muito fraco, era preocupante, então decidi que mesmo que eu não conseguisse ficar com ele, eu ia arrumar alguém que pudesse cuidá-lo. Pra isso eu precisava de uma ajuda, tanto pra um caso quanto pra outro, sendo assim, no caminho pra casa fiquei falando com Júlia (minha ex-namorada que mora no meu prédio), principalmente porque lembrei que ela própria tinha uma gata, então qualquer coisa ela poderia cuidar dele.
Nas mensagens eu não dei muitas informações, só pedi pra que ela me encontrasse no térreo do prédio e que lá eu explicaria tudo melhor, e deixei claro que precisava da ajuda dela nisso. Quando finalmente cheguei no prédio, Júlia já estava lá no sofá do térreo me esperando, após abraça-la, me sentei com ela, expliquei a história toda e lhe mostrei o gato.
Ela certamente ficou encantando por ele, veio com o clássico "own, que coisa mais fofa" e o pegou no braço para acaricia-lo.
Então eu comecei a explicar toda a situação.
- Eu não podia deixar ele lá sozinho, olha o seu tamanho, era pra ele está com alguém.
- Eu sinceramente espero que seja lá quem abandonou essa coisa linda por lá morra no inferno. - disse Júlia, revoltada.
- Também queria entender isso. - falei
- Mas sua mãe vai te deixar ficar com ele?
- Sinceramente? - falei - Muito pouco provável, mas eu vou tentar convencê-la.
- E se ela não deixar?
- Amanhã mesmo tentarei arrumar alguém que possa ficar com ele, mas ainda assim eu terei que tentar convencê-la a deixa-lo ficar só por essa noite.
- E se ela também não deixar isso?
Respirei fundo, e me preparei pra falar o que seria uma ajuda importante da parte dela.
- Ai no caso eu te pediria pra ficar com ele só por essa noite.
- Mas... - Tentou falar Júlia já questionando.
- Veja... - falei interrompendo ela - você já tem uma gata, já os recursos pra conseguir mantê-lo por uma noite, já é alguma coisa.
- Mas é por isso mesmo, eu já tenho uma gata e que já dar muito trabalho, meus pais ficariam doidinhos, isso sem falar que ela é ciumenta pra caramba. - falou Júlia - é até por isso que eu mesma não o adoto.
- Mas só por uma noite, Júlia, uma noite, é só o que eu peço, depois disso deixa comigo que eu cuido do resto.
Júlia ficou um pouco pensativa, mas no fim acabou aceitando.
- Ok, só por essa noite.
- Obrigado mesmo, Júlia. - falei - e se tudo der certo, isso nem será necessário.
- Assim esperamos.
E assim eu pedi pra que Júlia aguardasse com o gato ali pelo térreo, que eu ia subir pra tomar um banho rápido e tentar conversar com a minha mãe sobre isso, e que enquanto isso pedi pra que ela ficasse brincando com ele pelo pátio do prédio, e também tirei uma foto dele já pra mostrar como ele é pra minha mãe se necessário.
Então eu subi até em casa, e quando cheguei a primeira coisa que eu fiz foi cumprimentar minha mãe e minha irmã, depois tomei uma água e fui tomar um rápido banho.
Logo após me arrumar me preparei para ter a dura conversa com a minha mãe, não ia ser fácil, eu estava ciente disso.
Irei resumir tudo para não me prolongar muito, realmente, a reação inicial dela não foi das boas, fez muitos questionamentos de se eu cuidaria bem dele (ela nunca confiou em mim em relação a isso), mostrei a foto dele pra ela, disse as condições em que ele está, que parecia que não tinha ninguém que quisesse ou pudesse leva-lo para casa, dei minha palavra de que eu cuidaria bem dele, que arcaria com as despesas que ele traria, e inclusive falei que o levaria no veterinário logo no dia seguinte pra ver se ele tem alguma doença (o que eu faria de qualquer forma independente de eu conseguir ficar com ele ou não).
Mas de uma forma ou de outra, papo vai, papo vem, e depois de muito lenga-lenga, eu consegui convencê-la, claro, ela deu as condições todinhas, e coisa e tal, mas o importante era que eu tinha conseguido.
E eu estava realmente comprometido a cuidar dele, principalmente porque minha mãe também disse que se visse que a coisa não tivesse dando certo ela me obrigaria ou a dá-lo pra outra pessoa cuidar, ou para um abrigo de animais.
Mas fim das contas, tudo estava certo, naquela noite o melhor era ele ficar na casa da Júlia, já que ela tinha os recursos, e no dia seguinte eu o levei no veterinário e comprei uma parte do material necessário para cuidar dele (ração, tigelo pra por a comida, caixa de areia, enfim).
Inclusive, com a ajuda de Júlia, escolhemos um nome para ele, daquele dia em diante ele passou a se chamar Riddle.
Eu poderia encerrar a história agora, mas tenho uma forma melhor pra isso, que foi uma coisa que ocorreu no outro dia, eu estava sentado pra variar no meu computador fazendo as minhas coisas, então o pequeno Riddle entrou no me quarto e começou a se roçar nas minhas pernas, sendo assim eu o peguei, o coloquei no meu colo e comecei a lhe fazer um carinho. Nesse momento só se ouvia ele ronronando, e vez ou outra ele lambia carinhosamente a minha mão, era uma coisa muito linda de ser ver.
A partir dali, se começava uma grande e forte amizade entre um homem e um animal.


Brian

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Uma madrugada não muito qualquer

Aquela era uma semana como uma outra qualquer, sendo que um pouco mais puxada, aliás, muito mais puxada, eu estava atolado de trabalhos pra fazer. Já estava na reta final do semestre na faculdade, por isso o que não faltava era matéria pra ser feita, a gente mal ia ter prova, só trabalhos, o que era bom e ruim ao mesmo tempo.
De uma forma ou de outra eu já estava no ponto de que por mim eu não fazia mais nada e ficava apenas com as pernas para o ar, mas felizmente (ou infelizmente, não sei dizer), a responsabilidade não deixava eu fazer isso.
Mas enfim, era uma noite de quinta-feira e eu comecei a fazer uma parte de um trabalho que eu tinha que entregar na segunda, já pra ficar mais livre no fim de semana.
Mas claro, acabei não adiantando tanto o quanto eu queria, ai você me pergunta o porquê, e eu lhe respondo, porque eu sempre fico enrolando hora ou outra sempre que eu tento fazer algo da faculdade, é aquilo, qualquer besteirinha tira a minha atenção, o que faz o trabalho demorar mais do que deveria, mas eu já estou acostumado com isso, novidade é quando não for dessa forma.
Enfim, quando deu onze e meia da noite eu já tinha concluído pelo menos metade dele (poderia ter concluído bem mais, mas enfim, isso não vem ao caso), mas também foi a hora que o cansaço começou a bater, então a partir daí eu não conseguiria avançar em mais absolutamente nada, sendo assim eu resolvi parar e deixar pra continuar o resto na manhã seguinte bem cedo.
Logo após tomar essa decisão eu resolvi assistir algumas das minhas séries no computador, estava bastante atrasado nelas para variar, mas isso era uma coisa que eu nem me importava mais. E assim coloquei um episódio para rodar e fiquei assistindo.
Mas o problema era que eu estava tão cansado que mal estava conseguindo ver o episódio direito, de vez em vez eu dava uma cochilada e acabava perdendo algum detalhe do que se passava na tela, mas como eu não gostava de deixar o episódio pela metade, eu fiz um esforço e continuei assistindo até o fim mesmo com o sono que eu estava.
E com esse grande esforço, eu consegui finalizar o episódio, acabei perdendo alguns detalhes ou outro por causa de curtos cochilos, mas eu estava bem com isso. Comecei a desligar tudo, fui escovar os dentes, e assim que terminei, desliguei as luzes e me deitei na cama.
Pouco depois de eu deitar, quando eu ia começar a pegar no sono, meu celular tocou, alguém tinha me mandado mensagem. Por um instante eu fiquei na dúvida se ia ver o que era, ou se deixava pra lá, voltava a dormir e via só no dia seguinte, mas pouco depois o celular deu outro toque, ainda resisti por alguns momentos, mas acabei deixando me levar pela curiosidade de ver quem era que tava falando comigo naquela hora, então me levantei da cama e fui pegar o celular que estava em cima da estante.
Quando olhei, eram duas mensagens de Simone, claro que ver o nome dela foi razão o suficiente para eu ler a mesma.
Abri as mensagens, e nela estavam escritas:
"Brian?"
"Você tá ai?"
Então eu respondi:
"Sim, estou!"
"Tudo bem?" perguntou ela um pouco depois.
"Sim, e contigo?"
"Mais ou menos...."
Olhei por um instante, e depois digitei (isso já voltando a deitar na minha cama)
"Aconteceu  algo?"
Ela demorou alguns segundos pra responder, mas disse:
"Podemos dizer que sim."
Fiquei meio assustado na hora, parecia ser algo sério.
"Foi algo sério?"
E assim fiquei na expectativa pela resposta...
"Não muito, relaxa" respondeu ela
E assim dei um suspiro de alívio.
"Mas o que houve?" continuei perguntando
Esperei mais alguns instantes, até que ela finalmente disse:
"É só o meu nervosismo para uma prova que vou ter amanhã."
Pensei um pouco, e falei:
"Ah, te entendo bem estou quase na mesma situação..." e expliquei um pouco do meu caso.
Mas vale ressaltar que em momento nenhum eu falei para ela de que eu estava indo dormir, tipo, tudo bem que eu tinha colocado o despertador para me acordar as sete e pouca da manhã e que já era meia-noite e pouca, mas não ia me fazer mal dormir um pouquinho mais tarde, e sinceramente, o sono parecia ter ido embora do nada naquela hora.
Depois de eu falar um pouco de como estava minha situação, ela falou:
"Mas eu fiz uma pequena besteira?"
De novo eu me assustei.
"O que?" perguntei.
"É que eu fui inventar de tomar muito café pra conseguir me manter acordada, e agora que estou tentando dormir não estou conseguindo." respondeu ela um pouco depois.
"Sem sono mesmo?" perguntei
"Exatamente!"
"Caramba..."
Foi então que pouco depois, Simone falou uma coisa que me deixou sem palavras...
"Ei Brian, se eu te pedir uma coisa, tu faz?"
Estranhei um pouco a pergunta, mas respondi:
"O que?"
E assim fiquei alguns segundos na expectativa da resposta dela.
"Fica falando comigo até eu pegar no sono?"
E como eu já tinha dito anteriormente, aquilo simplesmente me deixou sem palavras.
E eu sem hesitar, falei:
"Claro, com certeza."
Esperei alguns segundos, e então ela me respondeu:
"Obrigada =)"
Aquilo me satisfez ainda mais, pode parecer besteira, mas é a verdade.
Após isso a gente ficou conversando altas besteiras até altas horas da madrugada. Meu sono definitivamente tinha sumido, tinha esquecido até mesmo da bosta do trabalho que eu ia terminar na minhã seguinte, chegou ao ponto que eram quase duas da manhã e eu ainda estava lá conversando com Simone, sei lá, como se tudo que me importasse naquele momento era apenas falar com ela, eu não me importaria nem mesmo em virar a noite falando com ela.
Quando chegou a mais ou menos quinze para as três da manhã, o assunto parecia que finalmente tinha acabado, aliás, não era pra menos, a gente estava a mais de duas horas falando. Foi então que Simone mandou:
"O sono voltou a bater."
Eu não fiquei feliz em ler isso, certamente, mas seria surpresa pra mim se ela ainda estivesse sem sono.
"Vai dormir agora?" mandei pra ela.
"Sim!"
"Ah, ok então =(" mandei
"Por que a carinha triste?" perguntou ela
"Nada não, é que a conversa tava boa..."
Naquele momento eu queria continuar a frase, mas não sabia se mandar exatamente aquilo que eu queria seria uma boa ideia, e eu percebi na hora que ela só estava aguardando isso.
Então tomei coragem e continuei digitando:
"... e tipo, conversar contigo faz eu me sentir bem..."
Parei novamente, e pensei mais duas vezes, me perguntava ainda se era uma boa ideia, mas continuei
"... tipo, eu estava meio tenso até agora pouco, mas depois que a gente começou a conversar eu até relaxei um pouco." pensei mais um pouco, até que finalmente enviei.
E antes mesmo dela começar a digitar alguma coisa, eu mandei:
"Você consegue fazer isso em mim, você consegue me trazer um pouco de tranquilidade."
E havia mais uma coisa que eu queria falar, que de novo eu não sabia se seria uma boa ideia, mas eu já estava com o "foda-se" ligado àquela altura do campeonato.
"Eu te adoro, simplesmente isso." E apertei enviar sem nem mesmo olhar.
Fiquei na expectativa pela resposta, minha mão tremia naquele momento, e só pensava que eu teria feito uma bela besteira em falar aquilo tudo. Até que...
"Own Brian, também te adoro s2".
Na hora eu senti uma mistura de alívio e alegria.
"Você também consegue me deixar mais tranquila..."
Ela ainda iria digitar mais alguma coisa.
"Aliás, foi exatamente por isso que eu fui falar contigo, porque eu sabia que você ia conseguir fazer isso em mim =)"
Eu não tinha mais palavras na hora.
"Queria poder falar mais com você, mas é que o sono ta grande agora, e eu não quero acabar te deixando no vácuo alguma hora." completou ela
Então eu respondi:
"Tudo bem, eu entendo =)"
"E sem falar que é melhor que nós dois façamos isso, já está tarde e tanto eu quanto tu temos coisas pra fazer amanhã de manhã." completei
"É, tas certo nisso também." disse ela
E depois de um momento em que nós dois ficamos sem falar nada, ela disse:
"Bom, estou indo dormir então."
E eu respondi:
"Ok, também vou então =)"
"Obrigada por ficar até essa hora comigo =)"
"Que isso, não foi nenhum incomodo, eu te garanto ;D"
"=D" mandou ela de volta.
E depois dela digitar mais uma coisa:
"Boa noite Brian."
"Boa noite Simone"
"Durma bem!" mandei em seguida
E pouco depois...
"Você também =)"
Esperei mais alguns segundos, e após ter certeza de que ela tinha ido dormir, eu também me recolhi.
Não demorou muito pra pegar no sono, apenas uns cinco minutos, mas no dia seguinte para eu acordar na hora que eu pretendia foi complicado, mas com um pequeno esforço eu consegui, porque afinal de contas, aquilo tudo tinha sido por uma boa causa, aliás, boa não, ótima causa.


Brian

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Mais uma daquelas sérias conversas com a minha consciência

Era mais um daqueles dias em que eu estava pensativo pra caramba, estava lá no meu quarto, olhando pro teto, fazendo absolutamente nada, além de refletir. Tem alguns momentos que a preguiça de fazer algo é tão grande, que eu prefiro simplesmente ficar deitado pensando em alguma coisa que ta acontecendo na minha vida.
A vida estava corrida e eu estava ficando cada vez mais cansado, muitas vezes quando chego em casa a primeira coisa que eu faço é me jogar na cama e dormir.
Naquela noite eu ate tinha alguns trabalhos para adiantar, mas como já disse anteriormente, a preguiça estava em um nível alto, e dessa forma eu me encontrava na cama de papo pro ar. Naquele momento, eu pensava em uma situação que vi minha amiga passando hoje com o namorado, aliás, uma situação que ela vem passando constantemente.
Os dois estão em um momento de altos e baixos, eles vem brigando constantemente, isso sem falar que já terminaram e reataram pelo menos umas duas vezes no mínimo. E essa é uma história que eu acompanho desde o princípio, sempre que acontece algo de ruim entre eles, minha amiga vem desabafar comigo.
Mas enfim, chegando no ponto em que eu quero...
Toda vez que eu observo a situação deles, aliás, não apenas deles, mas também de muitos outros casais que eu conheço, fico um pouco assustado. Através deles, eu vejo a dificuldade que é estar em uma relação, e eu posso falar por mim também já que eu também já tive uma experiência nisso e sei que não é fácil.
E são esses casos que provam o quanto o ser humano é complicado, já que muitas vezes os problemas dos casais surgem a partir de besteiras, em sua grande maioria, ciúmes exagerados, e era pensando nessas situações todas que eu chegava a seguinte conclusão...
Talvez ser solteiro não é uma coisa tão ruim, aliás, talvez seja até mais vantajoso, vendo todos esses exemplos que eu tinha, era difícil acreditar de que é possível eu ser feliz em um relacionamento amoroso, porque afinal de contas, o amor alguma hora sempre acabava, pelo menos comigo sempre foi assim. E se tinha uma coisa que eu sempre fazia questão de expressar em conversas sobre assuntos do tipo, é o meu medo de casar.
Eu sempre dizia que eu não sabia se queria casar um dia, principalmente me baseando por como acabou o casamento dos meus pais e como eles estão hoje, isso sem falar do fato que boa parte dos casais que se casam hoje em dia acabam se divorciando eventualmente.
A ideia de me casar com alguém achando que aquela pessoa será o amor da minha vida e que só a morte nos separaria, pra depois as coisas ficarem uma merda, a gente se separar e se odiar pelo resto da vida, simplesmente não me agradava. Aqueles pensamentos ficaram me martelando a cabeça ate altas horas da noite, isso até a hora em que peguei no sono por completo.
Quando acordei, já era de manhã, provavelmente umas sete e pouca, não me dei o trabalho de olhar o relógio, apenas reparei no fato de ter dormido com as luzes do quarto ligada.
"Espero realmente que mainha não tenha vista, porque senão ela me mata," pensei na hora
Nessa hora eu me levantei da cama e fui para o banheiro, podemos dizer que eu ainda não estava completamente acordado, meu cérebro ainda dormia, então fui até a pia e comecei a lavar o rosto na tentativa de me despertar, mas foi então que percebi uma coisa estranha...
Olhei pro espelho e reparei que meu reflexo não me "obedecia", enquanto estava lavando o rosto na pia eu o via me encarando seriamente.
"Que porra é essa? Eu estou doido?" pensei mais uma vez.
Foi então que...
- Não fique assustado. - falou meu reflexo
Mesmo ele falando eu acabei ficando assustado, depois do susto eu olhei fundo para ele, foi quando eu me dei conta que...
- Estou sonhando, né? - perguntei
Meu reflexo confirmou com a cabeça, e àquela altura já tinha me dado conta que era minha consciência que estava naquele espelho olhando para mim.
- Qual foi meu crime agora? - perguntei de novo
- Mentir para você mesmo! - respondeu minha consciência
Fiquei meio confuso na hora, e disse:
- Como assim?
- Ah, cara, não se faça de desentendido.
- Não me venha com essa, só me explique melhor isso! - falei com uma certa impaciência
- Ok, então... - falou ele - então vou ser um pouco mais específico.
Ele se abaixou no balcão da pia para ficar na mesma posição em que eu estava, cara a cara comigo.
- Você não acredita realmente nisso tudo que você pensa.
Eu respirei fundo, olhei bem pra ele, e disse:
- Desenvolva mais isso.
- Você sabe do que estou falando.
- PARA COM ESSE JOGUINHO E SIMPLESMENTE ME FALE TUDO!
- Ok... calma, você ta estressadinho hoje, hein? - falou minha consciência se levantando
Eu também me levantei e comecei a ouvi-lo.
- Você fala isso tudo de "não querer ter uma relação séria" por pura enganação, porque nós dois sabemos que isso não é verdade.
Respirei fundo, e disse:
- Continue.
- Eu sei melhor do que ninguém o que passa por essa sua cabecinha, e sei que sua maior vontade é ter um relacionamento sério com alguém, como Simone, pra ser mais específico.
E pra variar, o maldito tinha razão.
- Você sabe bem disso, mas agora me responda, porque você fica mentindo dizendo que não?
Eu estava sem palavras.
- Talvez porque seja mais fácil. - falei em tom baixo
- Ou então porque você acha que repetindo isso sempre, uma hora se torne verdade.
Eu apenas o ouvi.
- Mas vamos falar as verdades aqui, o que nós dois já sabemos, mas é sempre bom reforçar... - falou ele dando uma pausa - você não acha que viver solteiro é uma boa ideia, muito pelo contrário, você tem medo de acabar assim, e você também não quer estar solteiro, o problema é a sua falta de coragem de tentar algo com Simone, então, você fica falando essas merdas pra servir como desculpa.
E mais uma vez tudo aquilo fazia sentido.
- Mais uma coisa que você disse eu sei que é verdade...
- O que? - perguntei
- Você realmente tem medo de casar, e exatamente por aquelas razões.
Concordei com ele.
- Mas uma coisa é mentira, e eu quero que você me diga o que.
Pensei um pouco, dei um suspiro, e disse:
- A parte que eu disse que não pretendo me casar um dia.
- Exato! - falou minha consciência - mas sobre isso eu lhe dou uma dica...
- Sou todo ouvidos!
- Não leve os seus pais como exemplos pra tudo, porque senão ai que as coisas vão dar errado mesmo, lembre-se que sempre haverão as dificuldades, mas se você for forte, elas serão superadas e tudo valerá a pena.
"Tentarei me lembrar disso." pensei, talvez eu devesse ter falado, mas achei melhor deixar quieto.
- E isso não vale apenas pra casamentos... - continuou a consciência - mas também pra todas as relações que você tiver.
Eu ainda o ouvia.
- Mas agora só lembre-se de uma coisa...
- O que? - perguntei
- Quando você fala essas besteiras todas, você pode até enganar os outros, mas não pode enganar nem a mim, e muito menos a você mesmo, por mais que tente.
A gente ficou se encarando por alguns segundos, eu ia falar uma coisa, quando de repente tudo começou a tremer e o espelho se quebrou na minha frente.
Foi quando eu acordei, dessa vez de verdade.
Eram cinco e pouca da manhã, e eu realmente tinha dormido com tudo ligado, eu desliguei tudo e torci pra que minha mãe não tivesse visto. Logo após voltei pra cama e tentei voltar a dormi, mas o sono já tinha ido embora, então eu simplesmente fiquei deitado na cama com o fone de ouvido, pensando naquelas coisas todas que a consciência me disse, até dar sete e pouca e eu finalmente ter coragem de me levantar da cama.


Brian

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A estranha sensação de ter esquecido alguma coisa

Sabe quando você sai de casa com aquela sensação de que esqueceu de alguma coisa? Pelo menos comigo isso é bem comum de acontecer, para ser mais exato, tenho essa sensação todas as vezes que ponho o pé para fora de casa.
Na maioria das vezes é apenas impressão mesmo, mas da mesma forma a pessoa fica checando as coisas umas mil vezes para ter certeza, ainda assim a sensação não vai embora. Mas também há aquelas vezes que você realmente ver que esqueceu de algo, e acaba tendo que voltar seja lá qual distância para pegar essa coisa. E também há as vezes que você só percebe que esqueceu algo quando já é tarde demais para voltar e pegar essa coisa.
Irei contar para vocês agora um caso que ocorreu comigo desse último exemplo.
Aquele era mais um sábado como outro qualquer, ou nem tanto, minha mãe estava viajando à trabalho e só voltaria no dia seguinte, e minha irmã foi passar o dia na casa do namorado, então naquele dia almocei apenas com o meu pai.
A gente foi comer em uma pizzaria perto de casa que íamos constantemente, um daqueles restaurantes em que a pessoa vai normalmente para comer as mesmas coisas que comem nas outras vezes que vai lá. E depois do almoço eu iria direto para o meu treino de kung-fu de todos os sábados, então antes de irmos para o restaurante, eu já preparei minha mochila com as coisas que precisaria para o treino.
Certamente, depois de colocar tudo na mochila, eu chequei se tudo estava realmente lá mais umas quatro vezes. E nas quatro vezes eu concluí de que estava tudo lá. mas claro, a sensação de que eu tinha esquecido algo me martelava a cabeça. Mas a princípio eu a ignorei, apenas chequei as coisas mais uma vez só por garantia, e tendo o resultado dado o mesmo eu fui com o meu pai para o restaurante.
O local era perto, mas não perto o suficiente para ir a pé, então por isso a gente foi de carro para lá. Apesar que necessitaríamos do mesmo de uma forma ou de outra para eu ir para o treino depois.
Era meio-dia e pouco quando chegamos lá, o movimento era grande, mas ainda assim conseguimos um lugar para nos sentarmos. Nada ocorreu fora do normal após isso, o atendimento até funcionou bem para um restaurante em horário de pico, e durante todo o tempo em que ficamos lá a gente ficou conversando sobre coisas aleatórias.
O relógio marcava exatamente uma e meia da tarde quando saímos de lá, apesar de ainda ser um pouco cedo eu achei melhor ir dali direto para a federal (local onde eu treino). E comigo dirigindo dessa vez, seguimos nosso caminho.
Fomos pelo caminho mais longo para tentarmos matar um pouco de tempo para que eu não chegasse lá muito cedo, mas que mesmo sendo o mais longo, ainda assim era rápido.
Levou quase uma hora para chegarmos lá, o relógio marcava duas e meia quando desci do carro em direção ao local de treino, ainda faltava uma hora para o seu início.
Depois de me arrumar no carro, me despedi do meu pai e ele seguiu o seu caminho de volta para casa, iria aproveitar o resto da tarde para descansar um pouco já que iria em um casamento logo à noite.
Como já era de se esperar, ninguém do treino tinha chegado ainda, só havia por lá algumas pessoas que passavam pelo local e Chola, a cadela que está sempre por ali. Quando me avistou, ela veio alegremente correndo em minha direção, e eu, certamente, fiquei paparicando ela, também estava feliz em vê-la, pelo menos teria uma companhia até alguém chegar.
Depois de vinte minutos o mestre chegou, e aos poucos o resto do pessoal foi chegando, até que de três e meia, o treino teve seu início.
Pra variar, tivemos nossos couros arrancados durante a uma hora e meia de treino, eu saí de lá um trapo. De cinco horas, o treino foi encerrado, mas como o mestre ainda conversou sobre algumas coisas importantes com a gente, só saímos de lá de seis horas, quando já não se havia mais sol no céu.
Logo após o mestre dispensar todo mundo, eu segui meu caminho até a parada de ônibus com apenas uma coisa em mente, chegar em casa logo e descansar. O caminho até a parada àquela hora era estranho pra cacete, mas eu já estava acostumado com isso, então nem ligava mais. Chegando lá, havia algumas pessoas no local, ninguém com um ar suspeito, então fiquei em pé a espera do meu ônibus.
Foi então que aquela estranha sensação de ter esquecido algo voltou a me martelar. Pra falar a verdade, em momento nenhum ela tinha sumido, eu que tinha começado a ignora-la. E naquele momento eu resolvi checar minhas coisas mais uma vez para ter certeza.
Até que de repente eu finalmente tinha me dado conta do que eu tinha esquecido, meu vale-transporte.
"Puta que pariu, fodeu!" pensei desesperado.
E eu não estava com dinheiro pra pagar a passagem, esse era um erro que eu sempre cometia quando ia para o treino, nunca levava dinheiro. E certamente, pegar um táxi também estava fora de cogitação.
Também não havia a menor possibilidade de eu ir andando. não só por causa da hora, mas também pelo fato de que minha casa era longe pra cacete dali.
Então a minha saída era ligar para o meu pai e pedir para ele ir me buscar, o que eu queria muito não ter que fazer, mas era o jeito. Eu estava começando a discar o número dele no meu celular, até que eu lembrei de um mero detalhe...
Meu pai àquela hora já estaria indo para a porra do casamento, ou seja, com certeza não estaria disponível para ir até ali onde eu estava. E assim eu voltava para a estaca zero, minha mãe também não estava disponível já que nem em Recife ela sem encontrava.
"Fodeu, vou dormir na rua essa noite." pensei mais uma vez.
E ao mesmo tempo eu pensava em alguma outra possibilidade, qualquer outra coisa, sei lá, algum amigo que morasse ali por perto...
Foi nesse momento que me veio uma luz no fim do túnel, havia sim uma pessoa que eu conhecia que morava por ali, Heitor, um amigo meu da época do colégio. Apesar que fazia um bom tempo que eu não falava com o mesmo, aliás, tive poucas notícias dele ultimamente, a última que soube era que ele iria tentar vestibular pelo quinto ano seguido. Mas para alguém que estava na situação em que eu me encontrava, esse detalhe pouco importava.
Fui andando mais a frente na tentativa de avistar seu prédio, eu ainda lembrava exatamente onde era.
Não demorou muito até eu o encontrar, o prédio ficava exatamente no fim da rua. Sendo que quando eu fui me aproximando do portão eu me lembrei de um pequeno detalhe, mas, importante, eu não fazia ideia de qual era o apartamento em que ele morava. Nas poucas vezes em que tinha ido lá, eu tinha ficado apenas pelo térreo, nunca tinha subido para o apartamento dele.
E o prédio dele não tinha porteiro, você tinha que interfonar para o apartamento da pessoa para que ela descesse e abrisse o portão.
"E agora?" pensei.
Arriscar interfonar para cada apartamento e tentar a sorte definitivamente não era uma opção, eu ainda não estava desesperado a esse ponto.
Então eu me encostei em uma árvore que tinha ali próximo e comecei a pensar no que fazer, e foi nesse meio-tempo que lembrei de duas coisas:
1- Eu ainda tinha o telefone dele na minha lista de contatos.
2- Eu não tinha garantia nenhuma de que ele estava em casa.
Mas de uma forma ou de outra eu peguei meu celular e arrisquei ligar para ele.
Torci com todas as minhas forças interiores pra que aquele ainda fosse o número dele e que ele não tenha trocado durante esse tempo em que ficamos sem nos ver (ou que estivesse anotado certo no celular).
Fiz minha primeira tentativa, chamou, chamou, chamou, chamou, até que de repente...
"Deixe sua mensagem após o sinal..." e assim uma pequena parte da minha esperança ia embora.
Guardei o celular no bolso, respirei fundo, e esperei mais alguns instantes para fazer minha segunda tentativa, aliás, eu sabia que desde a época do colégio que Heitor não era um cara muito apegado ao celular, então provavelmente eles não estava com ele por perto.
Depois de alguns minutos, eu tentei de novo. E mais uma vez, chamou, chamou, chamou, e ai...
"Deixe sua men..."
"Um pouco de sorte, é tudo que eu peço" pensei na hora desligando o celular.
Esperei mais alguns instantes, ia fazer minha última tentativa, e o pior de tudo é que se aquilo não funcionasse eu não sabia mais o que tentar.
Disquei o número e aguardei, e assim chamava, chamava, chamava, chamav...
- Alô? - falou uma voz
- Alô... - respondi me endireitando - esse é o número de Heitor?
- É sim! - respondeu a pessoa que tinha atendido, que pela voz era um homem de meia-idade.
- Ele está?
- Está sim, mas, quem ta falando?
- É Brian, um amigo dele da época do colégio.
- Pera ai... - falou o homem - foi com você que Heitor foi para aquela festa da sala de vocês?
- É... sim. - eu lembrava desse dia, foi uma festa que a sala tinha organizado no 3º ano em que Heitor encheu a cara e eu tive que levá-lo até em casa com alguns outros amigos nossos, o pai dele ficou uma fera com ele.
Aliás, foi naquele momento que eu me dei conta que eu estava falando exatamente com o pai dele.
- E aí cara, tudo bem? - perguntou ele
- É... tudo sim... - respondi meio sem jeito - e com o senhor?
- Tudo sim, graças a Deus. - falou ele - e a faculdade, como tá?
- Puxada, mas está indo bem, e é o que importa.
- Fico feliz por você, mas enfim, vou chamar Heitor aqui, ai você aproveita e enfia na cabeça desse moleque pra que ele comece a estudar sério, que a essa altura já era pra ele ta terminando a faculdade.
Deu um riso forçado, e disse:
- Beleza, falarei.
- Beleza... - falou ele rindo - passar bem.
- Você também! - respondi
E assim fiquei esperando, ao fundo se ouvia o pai de Heitor chamando por ele e os passos de alguém que passava por ali na hora, até que depois de alguns segundos...
- Brian?
- Heitor?
- Quanto tempo, cara... - falou ele - como tu ta?
- Pois é, velho, to bem, e tu?
- Tudo limpeza. - respondeu - mas fala ai, a que devo a honra.
- Cara, vai ser estranho eu falando dessa forma mas, eu estou exatamente no portão do seu prédio.
- Não brinca?
- Se quiser a prova basta olhar pela varanda.
E poucos segundos depois ele apareceu na varanda, sem camisa, e me viu lá embaixo, me deu um aceno e eu acenei de volta.
- O que te trouxe aqui? - perguntou ele
- Bom, primeiramente, desce aqui que eu te explico com mais calma.
- Beleza então, vou só me arrumar aqui e já desço.
- Beleza... - respondi - até já então.
- Até! - falou ele desligando o celular.
Voltei a me encostar na árvore a espera dele, e alguns minutos depois ele apareceu saindo do elevador.
Quando ele abriu o portão, nos cumprimentamos, e depois eu expliquei com detalhes o que tinha acontecido para eu parar ali no portão do prédio dele.
- Mas que merda, hein? - falou ele
- Pois é.
- Bom, tem algo que eu possa fazer por você?
- Que bom que perguntaste... - falei - porque tem sim.
- Pois mande!
- Bom, nunca pensei que ia chegar o dia em que eu ia te pedir isso, mas, você poderia me emprestar uma grana para eu pagar a passagem? - realmente era estranho eu pedir aquilo para ele, já que na época do colégio o mais normal era acontecer o contrário, isso sem falar que já fiz tanto favor pra aquele cara que só Deus sabe o quanto ele me devia. - qualquer coisa próxima vez que eu saí do treino eu passo aqui e te pago.
Heitor deu uma leve risada, e respondeu:
- Rapaz, pode ser, mas minha carteira ta lá em cima, você espera eu ir lá pegar?
- De boas. - respondi
- Aliás, entra ai, me espera ali no banco.
- Beleza, valeu.
- Nada, já desço.
Me sentei no banco e fiquei o aguardando, fiquei fazendo algumas besteiras no celular enquanto isso. Não demorou muito para ele aparecer lá por baixo novamente.
- Ei Brian, tenho uma outra proposta...
- Diga! - falei me levantando
- Tipo, eu falei da tua situação pro povo lá em cima, e por isso, meu pai está te convidando pra jantar com a gente e também está se oferecendo pra te deixar em casa depois.
- Mas...
- E ele disse que insiste. - falou ele me interrompendo
Eu estava pensando em recusar, aliás, não estava afim de dar trabalho pra ninguém, mas depois eu pensei que quando eu chegasse em casa eu teria que fazer meu jantar já que só estaria eu lá, e eu não estava muito afim de fazer nada, e isso sem falar que ir pra casa de carro era muito melhor do que ter que pegar o "busão". Então eu resolvi aceitar o convite, que afinal, também seria uma oportunidade pra eu por a conversa em dia com Heitor.
E assim subi com Heitor, a partir dali a gente já começou a atualizar o outra das suas respectivas vidas, apesar que nada do que ele me disse era novidade, era a mesma coisa que ocorria com ele desde o fim do colégio.
Chegando lá em cima a mesa já estava sendo posta e a comida sendo preparada, falei com o pai de Heitor que me cumprimentou alegremente, e conheci o resto da família dele, que era no caso a mãe e as duas irmãs dele, uma mais nova e uma mais velha.
Enquanto a comida não ficava pronta, eu e Heitor ficamos no quarto dele ainda conversando sobre nossas vidas, até que uns quinze minutos depois a comida estava na mesa. O prato do dia era macarrão ao molho de camarão e canja.
Eu nunca gostei muito de canja e muito menos de camarão, mas ainda assim comi um pouco de cada sem falar nada, aliás, seria rude da minha parte se falasse algo. E afinal de contas, o macarrão ao molho de camarão nem estava ruim.
Durante o jantar a família de Heitor conversou um pouco comigo, perguntando coisas da minha vida, certamente, e claro, usaram algumas das coisas que eu falei da faculdade para dar alguns puxões de orelha nele, e cada vez que isso acontecia eu ria da cara dele. Afinal, eles tinham razão em reclamar com ele, e eu disse isso pra ele pouco antes do jantar.
Depois de todos terminarem as refeições, a mãe de Heitor me ofereceu um pedaço de pudim de sobremesa, e eu educadamente aceitei, e não me arrependi, estava uma delícia.
Quando terminei de comer, o pai de Heitor se ofereceu mais uma vez pra me levar em casa, e assim fui com ele depois de me despedir de todo mundo. Heitor disse pra eu aparecer mais vezes, e eu respondi que tentaria.
Expliquei todo o caminho pra minha casa para o pai de Heitor e ele conseguiu executá-lo sem muitas dificuldades, durante o caminho a gente ainda conversava sobre uma coisa ou outra, mas às vezes eu falava, mas a minha cabeça estava já na minha cama, o cansaço já falava alto pra caramba.
Depois de menos de meia hora de viagem, finalmente estava em casa, agradeci ao pai de Heitor e ele reforçou o que Heitor disse de aparecer pela casa dele quando eu quisesse, e eu disse mais uma vez que tentaria.
Quando eu subi o elevador eu já fui pegando a chave de casa na mochila, sendo que eu procurava, e procurava, mas não a achava.
"Porra, não é possível que eu esqueci isso também!" pensei
Mas depois de procurar com mais atenção, eu as achei no fundo da mochila.
- Ufa, que susto. - falei pra mim mesmo, aliviado.
Quando cheguei no meu andar, abri a porta e entrei no apartamento.
"Finalmente em casa." pensei aliviado
Então depois dessa doida situação, eu tomei um banho, e logo em seguida me joguei na cama. Não demorou muito para eu pegar no sono, sendo assim eu dormi com a luz do quarto ligada e só acordei no dia seguinte, o que prova o quanto eu estava cansado.
E principalmente depois dessa experiência, eu passei a checar mais de cinco vezes minhas coisas antes de sair de casa, mas mesmo assim, a sensação de ter esquecido algo ainda me martelava sempre.

Brian

terça-feira, 3 de março de 2015

A chegada

Aquele não era um sábado como outro qualquer, mais uma vez eu iria em outro show (sim, tem vindo bastante bandas que eu gosto para cá ultimamente) e pra variar minha animação estava lá em cima, mas apenas pelo show em si, havia um outro fator que fazia eu esperar ainda mais ansiosamente por esse dia. Era o dia que a Helo finalmente se mudaria pra Recife, e certamente ela iria nesse show comigo.
A Helo tinha sido aprovada no curso de enfermagem na federal daqui faz uns dois meses, mas só agora conseguiu acertar tudo para finalmente morar aqui, ela comprou uma casa não muito longe da faculdade e conseguiu também um emprego de meio-período em uma livraria, que ela só ficará temporariamente até a faculdade começar (que no caso seria em agosto). E sim, por incrível que pareça, mesmo com os gastos que foi a mudança toda ela conseguiu um dinheiro sobrando pra ir nesse show (apesar que o preço era até em conta se for comparar com outros shows que eu já fui), e junto com ela vieram alguns amigos dela de Arapiraca que iriam ver o show com a gente e voltariam para casa no dia seguinte.
Quando a Helo chegou em Recife era meio-dia, eu fui esperá-la na rodoviária, eu cheguei por lá umas onze e meia e não esperei mais de meia-hora até o ônibus dela chegar. Quando eu finalmente a vi no meio das pessoas que saiam do veículo junto com ela, não tive outra reação que não fosse ir em sua direção já me preparando para um abraço, e ela fez o mesmo assim que me viu. Aliás, isso era uma coisa que a gente esperava há muito tempo, depois de anos morando em cidades diferentes e só se comunicando via internet, a gente finalmente iria morar na mesma cidade, finalmente iria se ver com constância, finalmente a gente iria poder ir para os cantos juntos, e por ai vai.
Logo após lhe dar um longo abraço, ela me apresentou os amigos que a acompanharam, eram eles Júnior, Vitor, Mateus, Fred e o casal Ana e Bruno. E dali fomos primeiramente procurar um restaurante pra todos almoçarmos, eu estava morrendo de fome, e eles também, mais que eu provavelmente por causa da longa viagem. Achamos um self-service bem em conta não muito longe dali, e então fomos comer lá, enquanto comíamos eu fui conhecendo os amigos de Helo melhor e ela foi me contando das novidades da vida dela, e da viagem também.
Depois de mais ou menos uma hora almoçando naquele restaurante, pagamos a conta e fomos para a casa da Helo, apesar que haveria um problema, ir de ônibus para lá com o tanto de bagagem que eles tinham em mão definitivamente não era uma boa ideia, e um táxi só levaria no máximo quatro pessoas, e como éramos oito tivemos que pedir dois táxis. Ana, Bruno, Fred e Júnior foram em um, e eu, Helo, Vitor e Mateus fomos em outro. Levamos mais ou menos meia-hora para chegar na casa da Helo, cada um pegou sua parte do táxi ao chegar lá e eu os ajudei com as bagagens.
A casa era simples, mas já era o suficiente pra Helo (eu também acharia o suficiente se fosse morar lá). Inicialmente eu ajudei eles a arrumarem tudo que fosse preciso, porque, aliás, era muita coisa, a gente ficou um bom tempo arrumando aquilo tudo, e depois de quase uma hora a gente finalmente tinha concluído pelo menos oitenta porcento de tudo (o resto a Helo decidiu que deixaria pra depois), e a partir dali a gente resolveu aproveitar um pouco a estadia lá.
E assim ficamos lá conversando (algum deles bebendo, também) até a hora do show, que seria lá pras oito da noite, ou seja, a gente ficou um bom tempo pela casa da Helo. Um pouco mais tarde, quando já eram mais ou menos quase cinco horas a gente resolveu rachar uma pizza numa pizzaria que tinha perto pra dali ir pro show.
Era quase sete horas quando a gente pagou a conta, e ai fomos de ônibus para o local, felizmente o mesmo não demorou muito pra passar, ainda mais porque já estava escuro e a rua já tava começando a ficar estranha, e o caminho até o local do show durou apenas quinze minutos, sim, não era muito longe da casa da Helo. Quando chegamos eles ainda iam comprar seus respectivos ingressos (eu era o único que já os tinha em mão), e logo após, entramos.
Não demorou muito para a banda de abertura começar, apesar que a gente não ligou muito para ela, e então ficamos pela parte de trás da casa de show ainda conversando sobre coisas aleatórias, eles tomando as suas bebidas e eu tomando minha água de sempre. Só fomos para a pista quando a banda principal finalmente entrou no palco, que foi lá pra nove e meia da noite, e todos que estavam presentes no local foram a loucura (inclusive a gente), e mais uma vez foi uma noite de puro rock n roll.
A energia tanto da banda quanto do público eram fortes, a animação estava lá em cima, e a gente se incluía nesse meio (alguns como Júnior, Bruno e Mateus já estavam até um pouco alterados por conta do etílico), mas houve um momento que eu a Helo aproveitamos o show da mesma forma que a gente tinha aproveitado o Festival de Inverno de Garanhuns, apenas eu e ela pouco ligando para os outros ao nosso redor, era ótimo pensar que momento como aqueles iriam acontecer com mais frequência a partir de agora.
E depois de duas horas, o show chegou ao seu final, e claro, sempre deixando aquele gosto de "eu quero mais" no público presente, e quando as luzes se acenderam e os equipamentos começaram a ser retirados do palco que todos se deram conta que o fim tinha finalmente chegado e que era hora de ir para casa. Era quase meia-noite quando a Helo me perguntou.
- Vai voltar como, Brian?
- Vou ver se consigo um táxi agora, e vocês?
- Bom, Mateus vai pegar um táxi para casa de uma tia dele que mora aqui, Fred vai direto pra rodoviária porque ele vai direto pra maceió, Bruno e Ana vão passar a noite em um Hotel e Júnior e Vitor dormirão lá em casa.
- Vocês vão de táxi?
- Não, de ônibus.
- Rapaz, é meio estranho a essa hora, tem certeza que não querem pegar um táxi?
- Relaxa, Brian, vai ficar tudo bem.
- Ok, então... - falei
Mas depois de pensar um pouco, eu falei:
- Quer que eu espere seu ônibus chegar antes de eu ir?
- Precisa não, Brian, se quiser ir logo fique a vontade. - disse a Helo
- Mas eu faço questão de fazer isso.
- Brian, sério, não precisa.
Eu ia contra-argumentar, mas foi então que eu pus a mão no meu bolso e me dei conta de uma pequena merda, eu pretendia voltar de táxi mas eu estava com apenas cinco reais, e a corrida de lá pra minha casa dava uns vinte no mínimo.
- Puta que pariu, mentira, né? - falei indignado
- O que houve? - perguntou a Helo
E enquanto isso, Vitor tinha que aguentar as merdas que Júnior estava falando bêbado na calçada.
- To com a impressão que perdi um pouco o controle dos meus gastos hoje.
- Ta sem dinheiro pro táxi? - perguntou ela
- Exatamente!
E ainda tinha me dado conta que eu achei que tinha saído com uma certa quantia de casa, mas na verdade eu saí com menos, tinha esquecido de pegar uma maldita nota de cinquenta.
- E agora, como tu vai fazer? - perguntou a Helo
- Agora infelizmente é pegar o busão.
- Certeza? - perguntou ela
- Eu sinceramente queria não usar essa opção - falei - mas não me resta outra alternativa.
- Na verdade resta sim... - disse ela
- Como assim? - perguntei
- Você dormir lá em casa e deixar pra pegar o ônibus amanhã de manhã.
- Não Helo, não quero incomodar.
- Mas eu garanto que não será incômodo nenhum.
Disse ela olhando bem pros meus olhos.
Eu realmente não tinha muitas opções naquele momento, e aquela parecia ser a melhor, então acabei aceitando
- Está bem, então.
A Helo esbanjou um grande sorriso depois que eu dei minha respostas, e eu retribui, aliás, de uma forma ou de outra era bom estar com os amigos. Logo após eu fui com eles até a parada de ônibus, e claro, mandei um SMS para a minha mãe explicando a situação e dizendo que não havia razões pra ela se preocupar. No caminho a gente fazia os nossos comentários sobre o show e ríamos do Júnior falando besteira bêbado.
A rua estava realmente estranha naquela hora, mas felizmente não éramos os únicos esperando ônibus naquela parada, havia um número considerado de gente por lá, levou uns quinze minutos até o nosso ônibus passar, o mesmo também estava meio estranho, além da gente só haviam umas três pessoas sentadas por lá, certamente ainda falávamos besteira dentro do ônibus, mas de uma forma ou de outra eu ainda ficava ligado na movimentação ao meu redor.
Depois de quinze minutos a gente finalmente tinha chegado na nossa parada, e andamos ainda mais uns cinco minutos até chegar na casa da Helo. Quando chegamos, a primeira coisa que fizemos foi levar Júnior para a cama dele no quarto de hóspede, onde ele simplesmente apagou no primeiro momento em que deitou, Vitor foi tomar um banho e depois foi dormir no colchão deixado ao lado da cama onde Júnior dormia. Já eu e a Helo, por incrível que parecesse, não tínhamos um pingo de sono, e aí ficamos no sofá da sala conversando sobre coisas aleatórias, isso no caso já era perto de uma da manhã, foi então que em um momento da conversa, a Helo falou:
- Nem acredito, velho.
- O que? - perguntei
- Que esse dia chegou, o dia que a gente ficaria conversando pessoalmente juntos até tarde da noite.
Eu sorri para ela, e disse:
- Também não caiu a ficha pra mim, ainda.
E assim ela me abriu um belo sorriso, sorriso esse que realçava ainda mais a sua beleza.
O tempo passava e a gente nem via, pelo menos até o momento em que a Helo começou claramente a desabar de sono, foi então que eu disse:
- Tais morrendo de sono, né?
- Um pouco... - respondeu ela
- Se quiser ir dormir, fique a vontade.
- Não, Brian, relaxa.
- Sério, Helo, seu dia hoje foi cheio. teve a viagem e o show, você precisa descansar um pouco.
- Mas não quero te deixar sozinho aí.
- Não precisa se preocupar comigo, e me deito aqui e tento dormir também, ou na pior das hipóteses passo a noite em claro mesmo.
E a Helo lutava pra não cair de sono.
- Tá vendo que você não ta se aguentando? - insisti - sério Helo, eu ficarei bem, pode ir dormir.
Então a Helo falou:
- Tá certo, então. - fez uma leve pausa, e disse - você vai conseguir dormir no sofá?
- Eu me viro aqui. - respondi
Ela pensou um pouco, e disse:
- Ok então, se precisar de qualquer coisa é só gritar, beleza?
- Beleza... - respondi - mas pode dormir tranquila que isso não será problema.
Então ela riu e disse:
- Boa noite, Brian.
- Boa noite!
E assim ela foi pro seu quarto, logo após isso eu desliguei a luz da sala e me deitei no sofá esperando o sono chegar, o que demorou um pouco, eu ainda estava meio agitado, fiquei vinte minutos me revirando até finalmente pegar no sono.
No dia seguinte eu acordei as dez e vinte da manhã ao som do meu celular tocando, era a minha mãe preocupada porque eu não tinha chegado em casa ainda, e certamente eu a acalmei dizendo que estava tudo bem e que daqui a pouco estaria em casa. Depois que desliguei o celular, me levantei e o coloquei no bolso novamente, foi quando eu me dei conta de que horas eram.
"Caramba, dormi isso tudo?" pensei
Foi então eu ouvi a Helo vindo da cozinha.
- Bom dia! - falou ela
- Bom dia, Helo. - falei eu ainda um pouco sonolento
- Dormiu bem?
- Como uma pedra, literalmente... - respondi - e você?
- Posso dizer o mesmo que você. - disse ela rindo
E eu ri junto com ela.
- Acordou de que horas? - perguntei
- Por incrível que pareça, umas oito e pouca.
- Caramba... - falei - e os caras, já acordaram?
- Já acordaram e já foram, pegaram o ônibus bem cedinho.
- E o Júnior?
- Acordou de ressaca, certamente.
E começamos a rir juntos.
Ficamos um momento calados, até que eu disse:
- Bom Helo, obrigado pela hospitalidade, mas acho que é melhor eu ir, minha mãe já ligou me enchendo o saco.
- Mas não vai comer nada antes?
- Ta tudo bem, eu como em casa, não quero dar trabalho.
- Nem venha com essa, Brian, eu insisto e não aceito "não" como resposta.
Bom, eu realmente queria ficar um pouco mais lá de qualquer forma, então aceitei o convite sem hesitar.
Fizemos um sanduíche de mortadela pra nós dois, nos sentamos e começamos a conversar de coisas aleatórias (pra variar), e mesmo depois que terminamos de comer, a gente ainda ficou mais uns vinte minutos sentados na mesa falando besteira, foi quando me dei conta que já eram quase onze da manhã, já tinha passado da hora de ir pra casa.
Fui para a parada e a Helo me acompanhou, e lá ficou até meu ônibus passar, o que não demorou nem quinze minutos, e antes de eu subir nele a gente se abraçou fortemente, e a Helo falou pra mim:
- Obrigada pelo dia, obrigada pela ajuda com a casa e obrigada por tudo. - falou ela me dando três beijos na bochecha.
- De nada, Helo, obrigado você também por tudo, foi um ótimo dia. - falei retribuindo os beijos.
E quando o ônibus finalmente parou a gente se soltou e eu subi nele, quando o veículo deu partida eu ainda vi a Helo acenando para mim, e eu retribuí, e assim fui para casa finalmente, depois daquele belo dia. E me subia uma ótima sensação em pensar que dias como aqueles com a Helo ainda iriam se repetir muito a partir daquele momento.

Brian

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Mais uma daquelas conversas com a minha consciência

Aquele era mais um daqueles dias estressante em que eu simplesmente não devia ter levantado da cama, mais uma vez tive que aguentar calado as frescuras da minha família em casa, o que aconteceu exatamente eu prefiro não comentar pra não acabar passando mais raiva, mas eu posso dizer que sempre que essas coisas acontecem eu acabo com coisas entaladas na gargantas, boa parte delas são verdades que eu queria muito jogar na cara da pessoa, mas nunca faço. Ai você me pergunta o porquê, simplesmente porque eu sempre acabo dando uma de "bonzinho" e deixo passar pra não criar mais confusão, o que me faz muito mal, principalmente porque nos momentos em que estou sozinho eu sempre fico remoendo aquilo tudo, e também penso em coisas que eu poderia ter dito, e acabo sentindo mais raiva ainda.
E pior ainda, como isso é uma coisa que eu faço desde que me entendo por gente, nessas horas eu começo a lembrar de coisas que me fizeram passar raiva no passado e que eu também deixei passar, e pior de tudo, boa parte dessas coisas aconteceram a anos atrás, mas ainda assim eu fico relembrando delas e sentindo a mesma raiva que eu senti na época, outra consequência disso é quando eu vou desabafar alguma dessas coisas com alguém, o sentimento de raiva sempre me sobe a cabeça e sempre acabo contando o acontecimento gritando de raiva, meus amigos sempre comentam isso quando ocorre.
Bom, era uma quarta-feira, era quase dez da noite e todos aqui em casa tinham ido dormir, para o meu alívio, finalmente eu teria um momento de paz, mas ainda assim aquilo tudo estava entalado na minha garganta, eu simplesmente não parava de pensar naquelas merdas todas, e certamente, eu começava a lembrar das outras coisas no passado que me fizeram passar raiva (em alguns casos, coisas que aconteceram a muitos anos atrás).
Até que depois de uma hora mais ou menos eu fui me deitar um pouco, pra ver se assim eu conseguia esfriar um pouco a cabeça, então depois de ficar uns vinte minutos rolando de um canto pro outro na cama, o sono começou a vir, e aos poucos eu acabei dormindo.
E quando me dei conta, eu abri meus olhos novamente, ai vi que tudo ainda estava ligado no meu quarto, então me levantei ainda sonolento para desligar tudo, sendo que antes de tudo eu iria olhar no meu celular a hora, quando o peguei eu estranhei uma coisa. Havia um vídeo passando nele, sendo que eu não estava fazendo nada no celular antes de pegar no sono, foi então que eu olhei melhor e vi que era um vídeo de um daqueles momentos que eu fico lembrando e tendo raiva.
Até que de repente, eu começo a olhar ao meu redor e vejo as paredes do meu quarto se desmontando, aliás, eu vejo meu quarto inteiro se desfazendo diante dos meus olhos, foi quando me dei conta que eu estava sonhando. Aos poucos meu quarto foi sumindo, até sobrar apenas um fundo branco, então de repente várias imagens começaram a passar pela paredes, todas elas eram lembranças minhas que me faziam ter raiva.
Foi então que eu senti aquela conhecida presença mais uma vez.
- Pode mandar a bronca! - falei pra minha consciência
- Você já está olhando pra ela. - disse ele mais uma vez, assumindo a minha fisionomia.
- Isso tudo que está nas paredes?
- Exato! 
Então ficamos alguns segundos parados observando as imagens que passavam, até minha consciência falar:
- Ás vezes me pergunto se você é masoquista.
- Por que dizes isso? - perguntei
- Porque eu não sei como você aguenta ficar relembrando dessas coisas e sentir a mesma raiva que você sentiu na hora, é angustiante, sério.
- Ás vezes eu me pergunto a mesma coisa. - falei
- E porque você continua fazendo?
- Porque é o que me resta.
- Explique melhor isso ai...
Respirei fundo, e falei:
- Já que eu não arrumo coragem pra falar na cara tudo aquilo que eu quero normalmente, o que me resta é ficar pensando de como as coisas seriam se eu conseguisse.
- O que te faz sentir pior do que você já está sentindo.
Ele tinha razão (mais uma vez).
- Agora me responda uma coisa... - continuou - isso adianta de algo?
Dei outro suspiro e falei bem baixinho:
- Não.
- Eu não ouvi direito! - retrucou minha consciência
- Eu disse que não! - falei mais alto
- E você sabe muito bem o que realmente vai adiantar, né?
- Sei! - respondi
- Então me fale agora em alto e bom som.
Fiquei calado por alguns segundos, e falei
- Falar na cara tudo aquilo que eu penso sem ter medo das consequências.
- Ai, ta vendo? - falou ele - você é um cara inteligente, só falta começar a ter atitude.
Atitude, essa era uma coisa que eu precisava melhorar muito, e urgentemente.
- Cara, irei te da um conselho... - continuou falando a minha consciência - sabe uma boa forma de começar a ter atitude?
- Diga!
- Não ter medo de arrumar confusão por isso, parar de querer ser o "bonzinho"...
Eu o ouvia atentamente.
- Isso porque quem normalmente é "bonzinho"... - continuava - não consegue se impor, não consegue absolutamente nada.
E eu pensava naquilo tudo que ele dizia, e fazia sentido.
- Aliás, veja por esse lado... - ele continuou falando - tu acha que as grandes revoluções da humanidade teriam acontecido se os envolvidos tivessem sido os "bonzinhos" e tivessem ficados quietos só para não arrumar confusão?
- Não. - respondi
- Pronto, essa é a prova de que pra você conseguir o que quer, você precisa se impor vez ou outra, arrumar confusão uma vez ou outra, e batalhar por isso.
- Mas eu prezo pelos meus relacionamentos. - falei
- Eu por acaso disse pra você deixar de fazer isso? - perguntou ele - Eu não disse que você tem que passar por cima das pessoas, e sim que você precisa de vez em quando entrar em algumas discussões, e se isso abalar seu relacionamento com a pessoa você pode tentar se resolver com ela depois.
Eu ainda tinha minhas dúvidas.
Foi então que a minha consciência começou a olhar pra mim, e falou:
- Mas lembre-se disso, não há respeito naquele que se omite.
Depois que ele disse aquilo, tudo começou a tremer, e as imagens nas paredes começaram a se apagar, era sinal de que eu estava prestes a acordar.
Então eu finalmente acordei, eu estava novamente eu meu quarto, e dessa vez de verdade, me levantei da cama e fui olhar o relógio, eram três e quinze da manhã, então nessa hora eu desliguei tudo e voltei para cama, ainda pensando no sonho que eu tive e naquilo tudo que minha consciência disse, e claro, repensando minhas atitudes, ou a falta delas, até finalmente pegar no sono de novo.


Brian

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Em um carnaval não muito qualquer...

E finalmente tinha chegado a época do ano que eu mais odiava, o carnaval, época que boa parte da população ia pras ruas comemorar uma das festas mais tradicionais da nossa cultura. Mas já pra quem não gosta de carnaval e quer fugir dele de alguma forma, como eu, arrumar o que fazer durante o feriado era difícil, principalmente aqui em Recife, já que praticamente tudo para e só volta a funcionar normalmente na quarta-feira de cinzas.
E lá estava eu, na terça-feira de carnaval de manhã, em casa, fazendo absolutamente nada, quer dizer, fazendo o que eu sempre faço quando to em casa a toa, navegando na internet, tocando violão, ouvindo música, e por ai vai.
Apesar disso tudo no sábado eu ate tinha ido pro centro da cidade de noite, isso porque uma banda que eu curto muito iria tocar, então fui la ver com meus amigos, e certamente, valeu a pena não só pelo show, mas também pela zoeira do pessoal e tudo o mais, tanto que todos só voltamos para casa depois do amanhecer.
Mas enfim, voltando para onde estávamos, eu continuava lá no meu quarto no tédio completo, enquanto também se ouvia algum bloco de carnaval passando pela rua daqui de casa. E eu realmente tava em uma de uns tempos para cá que eu não aguentava mais ficar em casa, sendo que o problema era aquilo que eu disse inicialmente sobre nada estar aberto durante o carnaval, basicamente, na verdade, o cinema é a única opção de diversão existente na semana de carnaval.
Então pensando nisso eu fui olhar o catálogo de filmes em cartaz na internet, havia alguns interessantes, chequei os horários e decidi que iria ver um naquela tarde, sendo que o problema era, com quem?
Minha mãe já tinha visto todos os filmes que ela queria ver que estão em cartaz e minha irmã estava viajando com o namorado, e boa parte dos meus amigos ou já tinham outras coisas pra fazer, ou estavam brincando carnaval, ou estavam viajando ou não queriam ver os respectivos filmes seja lá por qual razão, ou seja, provavelmente se eu quisesse ir no cinema eu teria que ir sozinho.
O que já estava praticamente decidido, já estava me programando e tudo, mas uma coisa era fato, ir no cinema sozinho era uma coisa muito deprimente, por isso eu ainda daria minhas últimas tentativas de conseguir alguém pra ir comigo. Foi então que eu recebi uma mensagem no meu celular, era "Dela", Simone.
"Oi Brian!" dizia a mensagem
"Oi Simone!" respondi de imediato
"Tudo bem contigo?"
Então respondi:
"Sim, e contigo?"
"Também, apesar do tédio" respondeu ela
E então a gente começou a conversar de como estava o nosso feriado, ela tinha ido ver uns parentes no interior durante o fim de semana e tinha voltado no dia anterior, e eu contei para ela da minha ida para o centro da cidade no sábado a noite.
Foi então que me veio em mente a ideia de chamá-la pra ir no cinema comigo, aliás, aquela era a oportunidade perfeita, estávamos nós dois completamente desocupados e seria apenas eu e ela.
"Ei, Simone"
"Diga." falou ela
Então respirei fundo, e escrevi:
"É que hoje eu tô pensando em ir no cinema..."
Então escrevi em outra linha:
"...e tava pensando, queres ir comigo?"
A partir daquele momento eu fiquei tenso em espera da resposta, meu coração chega disparava, até que alguns segundos depois ela respondeu:
"Claro que quero :)"
Simplesmente não haviam palavras que descrevessem a sensação de alegria que eu estava naquele momento. Então a gente começou a acertar tudo direitinho, em qual cinema seria, o horário e que filme seria, e assim eu finalmente dava um importante passo.
Marcamos bem cedinho, no início da tarde logo após o almoço, e assim que terminei o meu eu fui a caminho do shopping, isso eram mais ou menos meio-dia e meia. Cheguei lá eram uma e quinze da tarde, pra variar eu fui o primeiro a chegar, Simone ainda estava no caminho, mas segundo o que ela tinha dito quando eu liguei, ela não iria demorar muito pra chegar, então eu me sentei no primeiro banco que encontrei e fiquei lá a aguardando.
E enquanto isso eu simplesmente fiquei pensando nas minhas expectativas para aquele momento, talvez desse em algo, talvez não desse, só dependeria de mim, era só eu não fazer nenhuma bobagem que estava tudo bem, e enquanto eu pensava nisso tudo, eu apenas observava a movimentação do shopping (que mesmo com as lojas fechadas, ainda tinha bastante gente andando por lá).
Depois de uns vinte minutos, Simone finalmente tinha chegado, ela ligou para mim e pediu pra que eu a encontrasse no cinema, e assim fui para lá. Chegando lá eu ainda esperei alguns minutos até finalmente encontrar Simone.
Pode ser até clichê eu falar isso mais uma vez, mas ainda assim não deixa de ser verdade, ela estava muito linda, aliás, ela é linda, em todos os momentos, mas enfim. Quando a vi chegando eu acenei para que ela me visse, e assim que viu ela veio em minha direção, e então eu fui ao seu encontro. Quando nos aproximamos, nos cumprimentamos e nos abraçamos, aproveitei para dar um abraço mais apertado nela, e eu a senti retribuindo, o que me deu uma sensação de tranquilidade.
Então logo após a gente foi pra fila pra comprar os ingressos, que felizmente não tava lá muito grande naquela hora, ou seja, não demorou nem dez minutos. Então logo após de comprar os ingressos, Simone falou:
- E agora, o que faremos?
Eu pensei, e disse:
- Vamos andar um pouco por ai, apesar de não ter basicamente nada aberto.
A gente ainda tinha um tempinho de sobra, a sessão começava de duas e quarenta e ainda eram uma e meia da tarde.
Então Simone disse:
- Esse é o problema, mas não tem nada não, a gente fica rodando o shopping conversando mesmo.
"Isso porque as vezes não importa muito o que você vai fazer, e sim com quem você estar" pensei naquele momento, até pensei em falar isso para ela, mas achei melhor deixar quieto.
E aí fomos andar pelo shopping, além de conversar, certamente, a gente também ficou olhando as vitrines de algumas lojas fechadas (aliás, algumas, tipo a livraria, era uma pena que estavam fechadas, porque teria muita coisa de interessante pra gente ver lá).
Uma das poucas partes do shopping que estavam abertas naquele dia era o supermercado, então fomos para lá da uma olhada em tudo, logo na entrada havia umas máscaras e chapéus sendo vendidos pro carnaval, e a gente certamente começou a zoar os experimentando, alguns ficavam legais na gente e outros ficavam toscos pra cacete. E em alguns casos (contra a minha vontade) tiramos algumas fotos da gente usando aquelas porcarias, e claro, rimos pra caramba.
Depois fomos pra alas de CD's e DVD's, que era a parte que mais nos interessava, e chegando lá ficamos falando sobre aqueles que nos interessava, e foi a partir daí que eu vi que eu e ela tínhamos um gosto bastante parecido. E havia alguns que eu até pensei em comprar, mas estavam com um preço bem salgado, então deixei para lá.
Quando nos demos conta, já eram duas e vinte e cinco.
- Melhor a gente ir pra fila, né? - falei
- Concordo contigo. - disse ela
E assim a gente foi em direção do cinema.
Quando chegamos lá, já tinham aberto a sala e logo entramos.
Ainda faltavam uns vinte minutos para o filme começar, e enquanto isso a gente continuava conversando sobre coisas aleatórias, apesar que, foi naquele momento que me passou pela mente:
"Porque você não fala dos seus sentimentos para ela?" pensei "é a oportunidade perfeita, apenas vocês dois numa sala de cinema, tem situação melhor que essa?"
E isso ficou martelando minha cabeça o tempo todo, mas pra variar, me faltou a droga da iniciativa.
"Tu é um cagão mesmo, hein Brian?" pensei
Até que o finalmente o filme começou, as luzes se apagaram e o telão se acendeu, e então ficamos em silêncio e passamos a olhar atentamente pro que se passava na tela.
Ao longo que o filme se desenrolava a gente não falou muito, o máximo que fazíamos era algum comentário rápido no ouvido do outro, e aquilo de falar do que eu sentia pra ela ainda vez ou outra me martelava, mas eu fazia de tudo para deixar isso para lá, o que não estava muito difícil, até um certo momento.
A sala estava fria pra caramba, o que pra mim não era muito problema, eu costumo a aguentar de boas, mas eu percebia que Simone estava simplesmente congelando, e a coitada estava sem um casaco. Foi então que de repente, ela se abraçou comigo.
- Posso? - perguntou ela - to com muito frio.
- Claro que pode. - respondi a abraçando de volta.
E certamente, aquelas coisas voltaram a me martelar ainda mais forte.
"Tu só não fala porque não quer." "Só depende de você." "Porque tu é assim, cara?" "Seja macho, caralho!" eram alguns dos pensamentos que passavam pela minha cabeça, e até mesmo alguns do tipo "Nessas horas me surpreende muito você não ser gay."
E daquela forma ficamos ao longo de todo o filme, e vez ou outra eu a sentia me abraçando mais forte, eu certamente retribuía, e vez ou outra também eu fazia um cafuné nela, e ela também fazia o mesmo em mim, e nessas horas que eu ficava em dúvida se prestava atenção no filme ou nela.
"Cara, eu sinceramente desisto de tu." pensei mais uma vez.
E depois de uma hora e meia, o filme tinha terminado, foi quando finalmente nos soltamos e fomos em direção da saída da sala. Enquanto saímos de lá, a gente certamente ficou falando do que a gente tinha achado do filme e demos todos os comentários que tínhamos em mente. Foi enquanto isso que eu perguntei pra Simone:
- Ei Simone, tu ta com tempo?
- Sim, por que?
Eu hesitei por um momento, mas falei:
- Quer... sei lá, sentar e comer um lanche, ou,... coisa assim?
Ela riu um pouco, provavelmente do meu nervosismo.
- Sim, claro que quero. - falou ela sorrindo
E ouvindo a sua resposta eu sorri junto com ela. E mais uma vez, vai ser clichê pra cacete eu falando isso, mas é a verdade, o sorriso dela realçava a beleza dela ainda mais.
Depois que decidimos o que iríamos comer, arrumamos uma mesa pela praça de alimentação (que tinha bastante gente, mas não estava lotada, felizmente), nos sentamos e continuamos a conversar enquanto comíamos. E enquanto ela falava, eu observava mais a sua beleza, e dessa forma aqueles pensamentos mais uma vez voltaram a me martelar, e cada vez mais forte, e de alguma forma isso estava me deixando nervoso, nervoso a ponto da minha mão começar a tremer, e Simone acabou percebendo.
- Brian, você tá bem?
Sem jeito, respondi:
- Claro, claro, por que não estaria? - falei com um sorriso meio forçado
- Você ta tremendo. - falou ela apontando pra minha mão.
- Ah, isso? - falei me fazendo de cínico - não é nada demais, é só o frio.
Ela fez uma cara de quem claramente não engoliu aquela história, mas por alguma razão ela deixou passar, para o meu alívio, e dessa forma eu tentava tirar aqueles pensamentos da minha cabeça de todas as formas possíveis.
Passava-se o tempo e a gente ainda estava lá conversando, e isso a gente já tendo terminado de comer há um bom tempo, até que uma hora Simone olhou pro relógio e ficou espantada.
- Caramba, já são quase sete horas. - isso porque quando a gente tinha saído da sala eram quase quatro - melhor a gente ir, não acha.
Na verdade eu não queria ir, eu queria ficar lá mais tempo com ela.
- É... É melhor. - falei meio que a contra-gosto.
Então eu perguntei:
- Você vai voltar como?
- Cara, essa é uma boa pergunta... - disse ela pensando - pela hora eu vou voltar de táxi mesmo.
- Ah, beleza. - falei logo após.
- E tu?
- Eu vou pegar um "busão" mesmo, o percusso não é lá muito longo.
- Beleza, mas você vai agora?
- Não exatamente... - falei - vou esperar tu pegar um táxi e ai eu vou.
- Ah, Brian, precisa disso não, se quiser ir logo pode ir.
- Não, não, faço questão de esperar.
Ela ficou calada por um momento e disse:
- Ta bem então... - disse sorrindo - é muito gentil da sua parte.
E eu mais uma vez retribuí o sorriso.
Fomos até a saída do shopping e ao contrário do que eu pensava, não havia nenhum táxi estacionado por lá (consequência da alta demanda do carnaval, provavelmente), então eu fiquei com Simone fazendo sinal pra todos os táxis que passavam por ali, não foi fácil, mas depois de uns quinze minutos a gente conseguiu.
Então quando um deles finalmente parou, Simone virou pra mim e disse:
- Bom, agora to indo nessa, obrigada Brian, não só pelo convite mas também por me esperar.
- Não precisa agradecer. - falei sorrindo
Ficamos calados por um momento, até que ela disse:
- Nos vemos quinta pela faculdade, então?
- Com certeza! - falei
E mais uma vez, ficamos calados olhando um para o outro por um momento.
- Bom, até lá então. - falou ela me abraçando fortemente e me dando um beijo no rosto.
- Até. - respondi meio sem graça.
E assim ela entrou no táxi e foi para o caminho de casa, enquanto eu fui pra parada de ônibus que ficava bem ao lado, felizmente o local ainda tinha uma movimentação, não muita, mas tinha, o que me deixava mais tranquilo, e assim fiquei lá esperando meu ônibus passar.
Depois de uns quinze minutos ele passou e assim segui meu caminho pra casa, e naquele momento apenas duas coisas passavam pela minha cabeça.
1- De como aquele dia valeu a pena.
2- De como eu preciso vencer a minha timidez urgentemente.
Eu simplesmente tinha desperdiçado a melhor chance que eu tive de falar pra Simone tudo aquilo que eu sentia por ela que estava entalado na minha garganta, foi nessa hora então que mais uma vez eu pensei.
"Caramba, velho, por que eu sou assim?"


Brian